Dissertativa 10 - 2ª Fase - Dia 2 - Unicamp 2026

Gabarito

Questão 10

Dissertativa
10

A partir da leitura da imagem a seguir, produzida por Carlos Julião, agente do império português na segunda metade do século XVIII, responda aos itens (a) e (b).

Legenda: Prancha 37, Coroação de uma rainha negra na festa de Reis, seguida por um cortejo de mulheres. Minas Gerais, segunda metade do século XVIII.

a) Descreva a imagem destacando quatro elementos ligados às práticas culturais africanas.

b) Cite e explique duas evidências da diversidade de status social dentro da população negra na colônia.

Resolução:

a) A imagem é uma representação etnográfica produzida pelo artista italiano Carlos Julião, retratando o protagonismo negro de um cortejo feminino na Festa de Reis ocorrida em Minas Gerais, na segunda metade do século XVIII. A arte enfatiza uma tradição afro-brasileira, dando destaque à presença da mulher coroada como rainha do Congo à frente de suas acompanhantes, evidenciando lógicas matrilineares de poder e relações sociais hierárquicas presentes em sociedades africanas. Reis e rainhas negros eram eleitos dentre os líderes de uma irmandade religiosa e de pessoas escravizadas e coroados simbolicamente como reis do Congo, demonstrando sua importância e poder em seu grupo social. As rainhas exerciam um poder tanto real quanto simbólico em suas comunidades, conferindo maior visibilidade a um protagonismo feminino em espaços públicos.

Entre elementos ligados às práticas culturais africanas que podem ser apontados estão:

  • O fortalecimento da noção de que o sistema de poder africano pode ter origem matrilinear, ao destacar como figura primordial a mulher coroada como rainha do Congo.
  • Trata-se de um cortejo de coroação de uma rainha, prática comum em festividades de origem africana, com o cetro e a coroa em destaque, evidenciando relações de poder e de status social hierárquicas.
  • O sincretismo cultural, unindo a tradição cristã da Festa de Reis (originária da comemoração aos Reis Magos) às tradições religiosas africanas, como nas práticas das congadas.
  • Atividades celebrativas, como a Festa de Reis, eram promovidas por irmandades religiosas e confrarias de pessoas negras escravizadas, espaços importantes para a sociabilidade cultural escrava naquele contexto social.
  • Vestimentas, chapéus e acessórios, como a sombrinha e o cetro, valorizando uma indumentária hierárquica e celebrativa que se remete a estéticas africanas adaptadas ao Brasil.
  • Os ornamentos apresentam elementos de identidade conectados à linhagem ancestral, valorizando características étnicas e religiosas.
  • Danças e instrumentos rítmicos de percussão, tocados por mulheres na cena, característicos de identidades culturais africanas e de patrimônios culturais de matriz africana.

b) A imagem mostra a heterogeneidade social, econômica e política encontrada na população negra no Brasil colonial.

A primeira evidência da diversidade de status social está na presença, em primeiro plano, de uma mulher negra (possivelmente alforriada), coroada como rainha, com um cetro de ouro nas mãos (símbolo de poder), à frente do cortejo (sinalizando liderança), usando vestes coloridas com bordados em ouro (demonstração de maior status econômico) e um manto vermelho, denotando tratar-se de uma figura de altas posições sociais.

A segunda evidência diz respeito à organização social hierárquica presente na sequência das personagens: aparecem outras mulheres negras em séquito para celebrar a coroação, desempenhando igualmente a função de servir às necessidades da rainha e demonstrando ocupar status social inferior. Uma das mulheres segura uma sombrinha para proteger a rainha, exemplificando a condição de serviçal; provavelmente escravizadas, pois estão descalças – elemento recorrente da iconografia colonial para retratar pessoas escravizadas.

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