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“Pisei o chão frio da noite. A lua pintava de prata as paredes do céu, as copas das árvores, os cones das palhotas, as estrelas brincavam ao pisca-pisca com os seus olhos amarelo-prateados, o meu marido estava bêbado de morrer, vai torturarme, este búfalo louco, por Deus!
- Sarnau, estás zangada?
- Não, não estou.
- Mas choraste. A bofetada que te dei foi só uma disciplina para aprenderes a não fazer ciúmes. Gosto muito de ti, Sarnau. És a minha primeira mulher. É tua toda a honra deste território. Tu és a mãe de todas as mães da nossa terra. Tu és o meu mundo, minha flor, rebuçado do meu coração.
Deixei cair duas gotas de fel bem amargas e salgadinhas. Meu marido acariciava-me à moda dos búfalos; dizia-me coisas no ouvido e o seu hálito fedia a álcool, enjoava-me, arrepiava-me, maltratando o meu corpinho frágil. Explodi furiosa e chorei de amargura.”]
Paulina Chiziane. Balada de amor ao vento. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
“As vozes cantam, o canavial balança, a máquina gira. De repente ouve-se um grito e o trabalho para. Um homem deixou o braço ser arrastado pelas roldanas, puxando-o para a máquina, e... crás! A cabeça esmigalhou-se como um coco.
- Parem! – gritou o colono. – Dois de vocês encarregam-se do homem. Outros limpam a máquina, rápido, tempo é dinheiro!
A lua já brincava no céu sem nuvens, quando os homens rudes de chapéu de palha e calcanhares de matope regressaram ao dormitório. Veio a refeição de fubá que comeram com apetite mesmo ao lado do morto. Depois veio a cachaça. Era todos os dias assim. Em cada noite eram presenteados com um cadáver vitimado por uma cobra, uma máquina, febre, ou pelo calor excessivo das torradeiras de café.
- Depressa, Damião, vai chamar o padre Moçambique e o curandeiro Januário.
A cachaça rodava enquanto aguardavam a chegada dos dirigentes espirituais, velando pelo morto sem uma lágrima nos olhos, contando histórias da terra, da travessia dos mares e das lutas de resistência.
Mwando, o padre Moçambique, chegou trajando a sua batina de pano cru, chapéu de palha e pés descalços, levando a Bíblia na mão esquerda. Logo a seguir chegou também o angolano Januário. Todos se ergueram, tiraram os chapéus curvando-se numa vênia, em saudação aos seus dirigentes.”
Paulina Chiziane. Balada de amor ao vento. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
Cada um dos excertos menciona um dos protagonistas do romance: Sarnau, em Moçambique e Mwando, em Angola. A partir do contexto apresentado,
a) indique qual é a situação política de Angola e Moçambique no período em que ocorrem os episódios relatados nos excertos.
b) aponte dois traços das relações entre gêneros na sociedade em que se passa o excerto que enfoca Sarnau.
c) caracterize as relações religiosas e de trabalho presentes no excerto que menciona Mwando.
a) No período em que ocorrem os episódios relatados nos excertos, tanto Moçambique quanto Angola eram colônias de Portugal.
b) Dois traços das relações de gênero presentes no primeiro excerto são o patriarcalismo e a poligamia. O primeiro aspecto é manifesto na supremacia masculina em relação à mulher, observável no trecho pela diminuição de Sarnau a partir da naturalizada violência contra a mulher. O segundo traço é caracterizado pela possibilidade, para um líder político, de "possuir" múltiplas mulheres, como é visível, por exemplo, ao marido caracterizá-la como “minha primeira mulher” – a partir de que se subentende que há outras mulheres “dele".
c) As relações de trabalho eram, no contexto do excerto, marcadas pela intensa exploração e pela ausência de regulação ou controle efetivos. Quanto ao aspecto religioso, o trecho destaca a mistura entre a religiosidade nativa e popular - expressa na figura do curandeiro - e o catolicismo imposto pelo colonialismo português.
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