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Para responder às questões de 02 a 07, leia o conto “Hora certa”, do escritor Moacyr Scliar (1937-2011).
O avião estava no ar há uns trinta minutos, quando meu marido de repente se deu conta: não, ele não queria me abandonar.
Tudo — a súbita resolução, a saída apressada (nem roupa levara!), o embarque —, tudo não passara de uma precipitação. De um equívoco terrível. Na verdade, ele não queria viver com outra, ele queria mesmo era ficar com sua mulher e seus filhos.
Quinze anos de vida conjugal, uma família, isso não era coisa que ele pudesse jogar fora como casca de banana.
(Casca de banana: a esta imagem, ele — no avião — não pôde deixar de sorrir. Porque estava lembrando uma cena engraçada: na primeira vez em que saímos juntos ele escorregou numa casca de banana, à porta mesmo da casa de meus pais. Rimos os dois, eu até um pouco contrafeita — não seria aquilo um presságio, um mau presságio. Ele adivinhara meu pensamento: nunca mais escorregarei, garantira, nunca.)
Verdadeiro juramento, que agora lhe vinha à mente enquanto o avião prosseguia sua rota entre nuvens negras, iluminadas às vezes por relâmpagos ameaçadores. Verdadeiro juramento. Que por um triz escapara de romper: num momento de insensatez decidira abandonar a família, os amigos, tudo, enfim, por uma mulher que aparecera na cidade, uma atriz; verdade que bonita, inteligente, culta — mas de qualquer maneira uma desconhecida. Coisa de adolescente. Mas a lucidez lhe voltara: o voo era longo o bastante para permiti-lo. Ainda bem que a gente vive num país de grandes distâncias, pensou, um país de longos voos. Lastima o dinheiro da passagem — aliás ele se apercebia disso agora: passagem de ida e de volta. Significando isso o quê? Ora, que na realidade pensava em voltar, não queria romper com tudo. Inconscientemente, tomara uma providencial precaução. Tudo o que precisava fazer agora era desembarcar, ir ao balcão da companhia e marcar lugar no primeiro voo de volta. A funcionária estranharia, decerto: e daí? Que estranhasse, ela. Não se aborreceria. Talvez até revelasse à moça: estou voltando para casa, sabe? Cometi um erro, deixei minha família, mas durante o voo reconheci meu erro e agora quero voltar o mais depressa possível. Sorrindo, compreensiva, a moça lhe perguntaria pela bagagem; e quando ele respondesse que nada trazia, ela lhe ponderaria o que ele deveria ter descoberto antes de embarcar: ah, mas então o senhor não estava com muita vontade de viver esta aventura. E ririam os dois.
— Jantar, senhor?
Era a aeromoça, com a bandeja. Meu marido recusou: não, não queria nada; tinha esperança de voltar a tempo para jantar conosco, com sua família. Seria o jantar de reconciliação, embora de nada soubéssemos; porque ele não diria nada, não revelaria o que se tinha passado. Para que estragar o jantar? Era o nosso melhor momento juntos. Sempre. Que bobagem eu ia fazer, murmurou. O homem ao lado olhou-o, surpreso, desconfiado. Meu marido sorriu: pensou em contar ao outro, olhe, eu ia deixar minha família — mas desistiu. Consultou o relógio: dezenove e quarenta e sete. Minto: dezenove e quarenta e dois. Cinco minutos depois o avião se espatifava contra a montanha. E tudo o que meu marido pensou ficou em segredo; um segredo que guardo
entre nós dois, cuidadosamente.
Como cuidadosamente guardo seu relógio, para sempre parado: dezenove horas, quarenta e sete minutos.
(Moacyr Scliar. A orelha de Van Gogh: contos, 1989.)
Visando ao humor, o texto, no quarto parágrafo, explora a polissemia de “escorregar”. Na primeira ocorrência, o verbo significa literalmente o marido sofrer um deslizamento com o pé sobre uma casca de banana. Na segunda, de modo figurado, indica a promessa do marido de não cometer erros no casamento.
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