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Fotograma do filme A paixão segundo G.H., de Luís Fernando Carvalho, 2024 - teaser oficial.
Ontem de manhã – quando saí da sala para o quarto da empregada – nada me fazia supor que eu estava a um passo da descoberta de um império.
Clarice Lispector. A paixão segundo G.H.
O filme A paixão segundo G.H. (2024), de Luís Fernando Carvalho, elabora uma recriação cinematográfica do romance homônimo de Clarice Lispector. Na cena retratada no fotograma, a personagem G.H. começa sua viagem iniciática em direção às dependências da empregada em seu apartamento no Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo que se ouve, em narração off, a frase citada do romance, observa-se que o diretor do filme acrescentou a ela um elemento que não estava no livro: a bandeira do Brasil colada à porta do quarto.
Com base no livro e na cena apresentada no fotograma, depreende-se:
A paixão segundo G.H. possui um teor subjetivista que reflete a intenção da autora de não tratar de problemas sociais por meio da literatura. Nesse sentido, o “império” mencionado pela personagem não seria o “Brasil”, representado pela bandeira na cena, mas, sim, a subjetividade da protagonista.
A bandeira colada à porta do quarto evidencia que a descoberta do “império” a ser empreendida pela personagem G.H. revelará as fraturas da ordem familiar e social da classe patronal no Brasil, indicando como Clarice Lispector injeta no mundo doméstico do apartamento o drama das relações de privilégio e servilismo próprias da sociedade brasileira.
Apesar de ter sido considerada uma escritora descompromissada com as causas sociais, Clarice Lispector elabora, em A paixão segundo G.H., uma crítica às condições estruturais da sociedade brasileira por meio da caracterização de G.H., mulher branca e de classe média que estabelece uma relação violenta e autoritária com sua ex-empregada, como evidenciado na cena.
Ao exibir a bandeira colada à porta do quarto, Luís Fernando Carvalho almeja revelar, por meio da linguagem cinematográfica, a intenção de Clarice Lispector de atenuar as fraturas sociais da realidade brasileira com o retrato de uma patroa que, ao adentrar o universo surpreendentemente asseado da empregada, é capaz de compreendê-la em sua humanidade.
No livro de Clarice Lispector, o “império” a que se refere G.H., ao descrever as dependências da empregada, revela-se como sendo o Brasil, conforme evidenciado no fotograma, uma vez que, apesar da aparência asseada à primeira vista, o quarto se apresenta como um espaço de características primitivas e animalizadas, refratário a qualquer ação humanitária ou civilizatória.
Embora o “império” descoberto por G.H. esteja relacionado à dimensão interior, isto é, à subjetividade da protagonista-narradora, essa subjetividade é profundamente marcada pelo privilégio social e pelo desprezo patronal em relação à empregada pobre, humilde e subalterna. Portanto, a dimensão subjetiva e existencial do romance de Clarice Lispector não pode ser dissociada das profundas fraturas produzidas pela desigualdade de classe, que se refletem na visão de mundo da personagem. Nesse sentido, a bandeira do Brasil na porta do quarto da empregada explicita a dimensão social do romance.
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