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Eu me perdi na sordidez do mundo
Eu me salvei na limpidez da terra
Eu me busquei no vento e me encontrei no mar
E nunca
Um navio da costa se afastou
Sem me levar
Sophia de Mello Breyner Andresen. Geografia. “Eu me perdi”.
Em Geografia (1967), Sophia de Mello Breyner Andresen recorre à descrição de elementos naturais e paisagens para construir o que se convenciona chamar de “geografia poética”. Considerando o contexto histórico de produção da obra – a longa ditadura portuguesa (1926-1974) e a guerra nas colônias africanas (1961-1974) –, como essa representação do espaço assume uma função crítica?
Os elementos da paisagem são parâmetros de “verdade” e transparência que denunciam, por contraste, a “noite” e a opacidade moral do regime político então vigente.
A representação da paisagem é puramente subjetiva e onírica, servindo para expressar o isolamento do sujeito poético em relação aos acontecimentos externos por meio do egocentrismo.
A exaltação dos territórios distantes e das “ilhas” é reforço à ideologia imperial do Estado Novo, celebrando a expansão portuguesa como uma missão civilizatória.
O espaço geográfico é um refúgio estético e idílico, permitindo que a poetisa ignore as tensões históricas ao buscar abrigo na beleza atemporal do Mediterrâneo.
A geografia assume um caráter de regionalismo saudosista, focando na descrição das tradições rurais portuguesas em oposição ao processo de modernização urbana.
Em Geografia, a autora celebra lugares em que encontrou luz e liberdade, portanto uma transparência e uma verdade que a afastavam do clima sufocante, mentiroso e autoritário da ditadura de António Salazar. Porém, não se trata de um evasionismo egocêntrico ou puramente estético, que ignora as tensões históricas e injustiças da época, mas da busca de territórios em que a autora pudesse recuperar sua energia e sua esperança em uma sociedade mais justa.
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