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Fui ver uma peça no teatro Cultura Artística: Para Sempre, de Maria Adelaide Amaral. No palco, um casal homossexual: Max (professor universitário vivido por Paulo Autran) e Tony (bancário interpretado por Celso Frateschi). Representavam uma relação assimétrica em idade, renda e cultura. Em determinado momento, o jovem diz que não se sentia atacado quando na periferia (onde vivia sua mãe) uma vizinha o chamava de “veado”. Ele se ofendia, realmente, quando algum amigo intelectual e sofisticado do marido elogiava “o café que ele passava”. Incrível sutileza de Maria Adelaide. O ataque direto e virulento da periferia era algo possível de ser respondido: pertencia a um código binário da comunicação. O elogio sutil com uma etiqueta de gênero (“você é o de menor importância, o doméstico, o que faz café”) era mais agressivo. “Você passa bem café” é um louvor-prisão, um rebaixamento naquele universo onde o valor era dado pelos livros lidos/escritos. “Veado” estabelece um código de “eu” e “anti-eu”. “Passador de café hábil” empurra para um nada inferior na percepção de Tony. Ao primeiro insulto, se responde com algo defensivo; ao segundo, talvez, só possamos sorrir de forma amarela. Sutileza psicológica e textual: agredir com um elogio, preconceito com açúcar, ataque com punho de renda...
(Adaptado de KARNAL, L. Esperança no bom-senso. Cultura & Comportamento. O Estado de S. Paulo, 15/3/2026, C16.)
No texto, louvor-prisão consiste numa criação vocabular para designar uma
postura discriminatória disfarçada de enaltecimento.
ofensa explícita motivada por preconceito.
expressão de empatia frente a uma agressão verbal.
conduta defensiva diante de um falso elogio.
Alternativa A: correta. O texto explica que o elogio “o café que ele passava” (como “você passa bem o café”), vindo do amigo intelectual, é um “louvor-prisão”, ou seja, esse suposto elogio funciona como um rebaixamento disfarçado de elogio, um “preconceito com açúcar”. Nesse sentido, o neologismo “louvor-prisão” rotula o personagem periférico em um papel de subordinação e de menor importância (o doméstico, servil), dentro de um ambiente elitizado, explicitando, portanto, uma postura discriminatória disfarçada de enaltecimento.
Alternativa B: incorreta. O neologismo “louvor-prisão” não é uma ofensa explícita, já que o ataque é justamente violento por estar disfarçado (“envernizado”) de elogio. A violência explícita, mas menos sentida pelo narrador, era o termo “veado”, usado na periferia.
Alternativa C: incorreta. Longe de apresentar empatia, o texto deixa claro que o termo “louvor-prisão” se apresenta agressivo e em forma de “ataque com punho de renda”.
Alternativa D: incorreta. O falso elogio não foi uma conduta defensiva de quem o falou, mas sim um ataque velado, que empurra o outro para uma posição de inferioridade.
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