Questão 22 - Unicamp - R_Z - Unicamp 2027

Gabarito

Questão 22

Objetiva
22

(Bolsa de mandinga anexada ao processo da Inquisição contra Jaques Viegas em 1704. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, proc. 2355.)

Entre os inúmeros objetos e artefatos que circulavam no Atlântico escravista da época moderna, destacam-se as célebres bolsas de mandinga. Eram amuletos confeccionados em couro ou tecido, usados ao pescoço sobretudo por populações de origem africana. Acreditava-se que, por meio deles, seria possível “fechar” o corpo contra agressões físicas e espirituais. No interior dessas bolsas havia uma variedade de elementos simbólicos, fruto do contato entre diferentes tradições culturais: itens da flora e fauna americanas; partes do corpo humano, como unhas, cabelos, ossos e dentes; materiais ligados aos ritos católicos, como pedra d’ara e fragmentos de hóstias; além de componentes escritos e imagéticos, como orações, cruzes e outros símbolos gráficos. Elas circulavam por redes que conectavam regiões como Minas Gerais, Recife, Rio de Janeiro, Lisboa, Costa da Mina e Angola. Sua difusão aumentou no século XVIII, quando diversos mandingueiros foram presos pela Inquisição.

(Adaptado de SOUZA, L de M. e. O Diabo e a terra de Santa Cruz. São Paulo: Companhia das Letras, 1986. pp. 210–226.)

Com base no excerto, é correto afirmar que as bolsas de mandinga

Alternativas

  1. A

    evidenciam a preservação de tradições religiosas africanas no mundo colonial, mantendo-se relativamente imunes à incorporação de elementos culturais europeus e americanos.

  2. B

    constituíam recursos espirituais de proteção amplamente utilizados no Atlântico escravista, articulando elementos provenientes de diferentes tradições culturais em novas práticas religiosas.

  3. C

    demonstram o avanço da cristianização das populações africanas na América portuguesa, uma vez que incorporavam objetos e símbolos católicos em substituição às práticas religiosas africanas.

  4. D

    eram artefatos de matriz islâmica, portados por escravizados de origem mandinga, que permitiam a leitura clandestina do Alcorão e a transmissão de preceitos, fundamentos e práticas no Brasil.

Gabarito:
    B

A questão aborda as bolsas de mandinga no Atlântico escravista da época moderna, a partir de excerto de Laura de Mello e Souza, e mobiliza como conceitos centrais o sincretismo e o hibridismo cultural, a resistência e a agência das populações escravizadas, a circularidade atlântica e a repressão religiosa inquisitorial. O contexto histórico é o da diáspora africana e da escravidão no mundo colonial, em que populações de origem africana, desterritorializadas pelo tráfico atlântico, reconstruíram suas práticas religiosas em contato com tradições americanas e católicas.

As bolsas de mandinga eram amuletos confeccionados em couro ou tecido, usados ao pescoço sobretudo por populações de origem africana, aos quais se atribuía o poder de "fechar" o corpo contra agressões físicas e espirituais; no seu interior havia uma variedade de elementos simbólicos fruto do contato entre diferentes tradições culturais — itens da flora e fauna americanas, partes do corpo humano como unhas, cabelos, ossos e dentes, materiais ligados aos ritos católicos como pedra d'ara e fragmentos de hóstias, além de componentes escritos e imagéticos como orações, cruzes e outros símbolos gráficos. Essas bolsas circulavam por redes que conectavam Minas Gerais, Recife, Rio de Janeiro, Lisboa, Costa da Mina e Angola, e sua difusão aumentou no século XVIII, quando diversos mandingueiros foram presos pela Inquisição. O conceito de hibridismo cultural, caro à historiografia de Laura de Mello e Souza, é aqui fundamental porque permite compreender que as culturas não se preservam "puras" nem se substituem umas pelas outras, mas se articulam em novas práticas; o conceito de agência, por sua vez, evidencia que as populações escravizadas não foram receptoras passivas de tradições, mas criadoras de formas próprias de lidar com a violência física e espiritual da escravidão; e o conceito de circularidade atlântica permite entender o Atlântico como espaço de circulação de pessoas, objetos e ideias, e não apenas de mercadorias. 

Alternativa A: incorreta. Pois afirma que as bolsas evidenciam a preservação de tradições religiosas africanas, mantendo-se relativamente imunes à incorporação de elementos culturais europeus e americanos, quando o texto diz exatamente o contrário, ao descrevê-las como "fruto do contato entre diferentes tradições culturais", incorporando itens da flora e fauna americanas e materiais católicos; a alternativa nega, portanto, a principal característica apontada pelo excerto, que é a mistura cultural.

Alternativa  B: correta. Pois afirma que as bolsas constituíam recursos espirituais de proteção amplamente utilizados no Atlântico escravista, articulando elementos provenientes de diferentes tradições culturais em novas práticas religiosas, o que corresponde precisamente ao texto, que as descreve como amuletos de proteção ("fechar" o corpo), circulando por amplas redes atlânticas e combinando elementos africanos, americanos e católicos em novas práticas religiosas; a expressão "novas práticas religiosas" é adequada porque o excerto descreve justamente a criação de algo híbrido, e não a mera preservação ou substituição de tradições.

Alternativa C: incorreta. Pois sustenta que as bolsas demonstram o avanço da cristianização das populações africanas, com a incorporação de objetos e símbolos católicos em substituição às práticas religiosas africanas; o texto não indica substituição, mas articulação, uma vez que os elementos católicos convivem com itens da flora e fauna americanas e com partes do corpo humano, em uma prática que não é simplesmente católica, de modo que a presença de símbolos católicos não elimina as referências africanas, mas integra-se a elas.

Alternativa D: incorreta. Pois afirma que as bolsas eram artefatos de matriz islâmica, portados por escravizados de origem mandinga, que permitiam a leitura clandestina do Alcorão e a transmissão de preceitos islâmicos no Brasil; o texto não menciona o Alcorão nem afirma que as bolsas eram instrumentos de leitura islâmica, mencionando apenas componentes escritos e imagéticos como orações, cruzes e símbolos gráficos, sem associá-los à leitura do Alcorão, de modo que a alternativa extrapola o que o documento afirma.

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