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Todo o serviço do interior das famílias sendo feito entre nós por escravos, a menina acha-se desde a primeira infância cercada de outras tantas perniciosas lições quanto são as ocasiões em que observa os gestos, as palavras e os atos dessa infeliz raça, desmoralizada pelo cativeiro, e condenada à educação do chicote!...
Sua nascente sensibilidade se habitua gradualmente a esse espetáculo afligidor, repetido quase diariamente à sua vista; não é raro ver ela (com horror o dizemos) infligir o mais cruel tratamento à própria ama que a amamentou.
De um lado os mais rudes tratamentos do senhor para com o escravo, do outro a impotência deste em repelir um jugo anticristão, sancionado pela mais tirânica das leis, e a necessidade do artifício para iludir o senhor e atenuar os sofrimentos da escravidão, tais são os quadros constantemente apresentados às crianças.
Nísia Floresta. Opúsculo Humanitário (Adaptado).
O fragmento da obra publicada em 1853
caracteriza o ensino doméstico formal e defende a abertura de escolas para a formação educacional das crianças brasileiras.
relembra a oposição contínua da Igreja católica à escravidão desde o período colonial e rejeita o fim dos castigos físicos a escravizados.
questiona a convivência das crianças brasileiras com escravizados e atribui ao Império a responsabilidade pela formação das crianças brasileiras.
apoia o projeto liberal de proibição do tráfico de escravizados e reitera o princípio ilustrado de igualdade de natureza.
critica a naturalização do escravismo entre as crianças brasileiras e avalia o impacto da escravidão na formação pessoal.
O texto de Nísia Floresta denuncia os efeitos negativos do convívio cotidiano das crianças com a escravidão, seja pelo mau exemplo das brutalidades infligidas pelos senhores aos escravizados, seja pelo caráter anticristão da escravidão, seja pelos recursos humilhantes a que os escravizados recorrem para escapar dos castigos. A naturalização da violência escravista causaria impacto na formação das crianças brasileiras, como seria mostrado mais tarde em obras como Memórias Póstumas de Brás Cubas.
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