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Nenhuma flor lamentava a morte dos escravos que Celestino sufocara em mar alto. Os homens despejaram a cal no porão, saco a saco. Os negros viram que um pó caía sobre eles, mas não entenderam o que se passava. Os sacos de cal foram vazados no porão e a porta fechada por Celestino. Ouviram-se gemidos, pedidos de socorro e, passado algum tempo, um silêncio que apaziguou os piratas. O rapaz que lhes abrira o porão pela calada manteve-se a um canto, aturdido. Entreolhando-se, buscaram na cara uns dos outros um sinal de que podiam voltar a falar. O capitão sorriu, como se estivesse sozinho. Asfixiados, os sessenta e poucos negros que restavam depois da revolta sucumbiram aos vapores corrosivos da cal. Celestino abeirou-se da proa, sem olhar a mortandade. De olho no horizonte que espreitava, ao nascer do dia, sorveu a maresia.
(...)
Adormecia de pé, trauteava cantigas da juventude, sonhava de olhos abertos.
Os relâmpagos caíram sem clemência no último Outono. Parecia que a velha casa da rua dos choupos era a última casa habitada no mundo, ou uma balsa esquecida nas ondas, ou o porão de escravos de um navio à deriva.
Os seus braços, despedidos do dono, esboçavam gestos de marinhar como se, por reflexo, os trovões desencadeassem uma arte antiga, guardada debaixo da sua pele.
Deixou de usar a pala, sem vergonha da cara desfigurada. No quintal, não se julgava no mar onde tinha navegado, mas num mar outro, sem homens e sem tempo.
Djaimilia Pereira de Almeida. A visão das plantas. Adaptado.
Nos excertos apresentados, Celestino é retratado em dois momentos distintos de sua vida.
a) Compare a sua atitude diante dos atos de violência em sua juventude e o seu estado psicológico na velhice.
b) Explique a relação simbólica entre o espaço do navio e o espaço da casa, tendo em vista a transformação do “mar onde tinha navegado” em um “mar outro, sem homens e sem tempo”.
a) Celestino, em sua juventude, era um assassino frio, o que fica claro pelo seu apaziguamento e sorriso devido à morte dos escravos causada pelo despejo de cal. Na velhice, em contraste com esse apaziguamento, sua atitude se transforma em tormento, evidenciada pela imagem de trovões que evocam “uma arte antiga” de ser o marinheiro que era, e seu estado mental faz com que ele passe a perceber sua casa como um “porão de escravos de um navio à deriva”, sugerindo que seu passado o perseguisse.
b) Devido aos traumas que Celestino experimenta em sua velhice, causados pelo passado regado de ações violentas, o espaço da casa do ex-marinheiro passa a se assemelhar com o interior de um navio, como é possível observar em “parecia que a acasa da rua dos choupos era…o porão de escravos de um navio à deriva”; os trovões, representando a tormenta que vive, desencadeia “uma arte antiga guardada debaixo de sua pele”, ou seja, seus atos enquanto jovem. Essa presentificação do passado explica a relação simbólica entre o “mar onde tinha navegado”, onde suas ações aconteceram, e o “mar outro, sem homens e sem tempo”, o espaço de sua consciência, onde ele confronta essas ações.
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