Questão 5 - Unicamp - T_X - Unicamp 2027

Gabarito

Questão 5

Objetiva
5

(Bolsa de mandinga anexada ao processo da Inquisição contra Jaques Viegas em 1704. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, proc. 2355.)

Entre os inúmeros objetos e artefatos que circulavam no Atlântico escravista da época moderna, destacam-se as célebres bolsas de mandinga. Eram amuletos confeccionados em couro ou tecido, usados ao pescoço sobretudo por populações de origem africana. Acreditava-se que, por meio deles, seria possível “fechar” o corpo contra agressões físicas e espirituais. No interior dessas bolsas havia uma variedade de elementos simbólicos, fruto do contato entre diferentes tradições culturais: itens da flora e fauna americanas; partes do corpo humano, como unhas, cabelos, ossos e dentes; materiais ligados aos ritos católicos, como pedra d’ara e fragmentos de hóstias; além de componentes escritos e imagéticos, como orações, cruzes e outros símbolos gráficos. Elas circulavam por redes que conectavam regiões como Minas Gerais, Recife, Rio de Janeiro, Lisboa, Costa da Mina e Angola. Sua difusão aumentou no século XVIII, quando diversos mandingueiros foram presos pela Inquisição.

(Adaptado de SOUZA, L de M. e. O Diabo e a terra de Santa Cruz. São Paulo: Companhia das Letras, 1986. pp. 210–226.)

Com base no excerto, é correto afirmar que as bolsas de mandinga

Alternativas

  1. A

    evidenciam a preservação de tradições religiosas africanas no mundo colonial, mantendo-se relativamente imunes à incorporação de elementos culturais europeus e americanos.

  2. B

    constituíam recursos espirituais de proteção amplamente utilizados no Atlântico escravista, articulando elementos provenientes de diferentes tradições culturais em novas práticas religiosas.

  3. C

    demonstram o avanço da cristianização das populações africanas na América portuguesa, uma vez que incorporavam objetos e símbolos católicos em substituição às práticas religiosas africanas.

  4. D

    eram artefatos de matriz islâmica, portados por escravizados de origem mandinga, que permitiam a leitura clandestina do Alcorão e a transmissão de preceitos, fundamentos e práticas no Brasil.

Gabarito:
    B

A questão aborda as bolsas de mandinga no Atlântico escravista da época moderna, a partir de excerto de Laura de Mello e Souza, e mobiliza como conceitos centrais o sincretismo e o hibridismo cultural, a resistência e a agência das populações escravizadas, a circularidade atlântica e a repressão religiosa inquisitorial. O contexto histórico é o da diáspora africana e da escravidão no mundo colonial, em que populações de origem africana, desterritorializadas pelo tráfico atlântico, reconstruíram suas práticas religiosas em contato com tradições americanas e católicas.

As bolsas de mandinga eram amuletos confeccionados em couro ou tecido, usados ao pescoço sobretudo por populações de origem africana, aos quais se atribuía o poder de "fechar" o corpo contra agressões físicas e espirituais; no seu interior havia uma variedade de elementos simbólicos fruto do contato entre diferentes tradições culturais — itens da flora e fauna americanas, partes do corpo humano como unhas, cabelos, ossos e dentes, materiais ligados aos ritos católicos como pedra d'ara e fragmentos de hóstias, além de componentes escritos e imagéticos como orações, cruzes e outros símbolos gráficos. Essas bolsas circulavam por redes que conectavam Minas Gerais, Recife, Rio de Janeiro, Lisboa, Costa da Mina e Angola, e sua difusão aumentou no século XVIII, quando diversos mandingueiros foram presos pela Inquisição. O conceito de hibridismo cultural, caro à historiografia de Laura de Mello e Souza, é aqui fundamental porque permite compreender que as culturas não se preservam "puras" nem se substituem umas pelas outras, mas se articulam em novas práticas; o conceito de agência, por sua vez, evidencia que as populações escravizadas não foram receptoras passivas de tradições, mas criadoras de formas próprias de lidar com a violência física e espiritual da escravidão; e o conceito de circularidade atlântica permite entender o Atlântico como espaço de circulação de pessoas, objetos e ideias, e não apenas de mercadorias. 

Alternativa A: incorreta. Pois afirma que as bolsas evidenciam a preservação de tradições religiosas africanas, mantendo-se relativamente imunes à incorporação de elementos culturais europeus e americanos, quando o texto diz exatamente o contrário, ao descrevê-las como "fruto do contato entre diferentes tradições culturais", incorporando itens da flora e fauna americanas e materiais católicos; a alternativa nega, portanto, a principal característica apontada pelo excerto, que é a mistura cultural.

Alternativa  B: correta. Pois afirma que as bolsas constituíam recursos espirituais de proteção amplamente utilizados no Atlântico escravista, articulando elementos provenientes de diferentes tradições culturais em novas práticas religiosas, o que corresponde precisamente ao texto, que as descreve como amuletos de proteção ("fechar" o corpo), circulando por amplas redes atlânticas e combinando elementos africanos, americanos e católicos em novas práticas religiosas; a expressão "novas práticas religiosas" é adequada porque o excerto descreve justamente a criação de algo híbrido, e não a mera preservação ou substituição de tradições.

Alternativa C: incorreta. Pois sustenta que as bolsas demonstram o avanço da cristianização das populações africanas, com a incorporação de objetos e símbolos católicos em substituição às práticas religiosas africanas; o texto não indica substituição, mas articulação, uma vez que os elementos católicos convivem com itens da flora e fauna americanas e com partes do corpo humano, em uma prática que não é simplesmente católica, de modo que a presença de símbolos católicos não elimina as referências africanas, mas integra-se a elas.

Alternativa D: incorreta. Pois afirma que as bolsas eram artefatos de matriz islâmica, portados por escravizados de origem mandinga, que permitiam a leitura clandestina do Alcorão e a transmissão de preceitos islâmicos no Brasil; o texto não menciona o Alcorão nem afirma que as bolsas eram instrumentos de leitura islâmica, mencionando apenas componentes escritos e imagéticos como orações, cruzes e símbolos gráficos, sem associá-los à leitura do Alcorão, de modo que a alternativa extrapola o que o documento afirma.

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