Dissertativa 19 - Conhecimentos Específicos e Redação - Santa Casa 2027

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Questão 19

Dissertativa
19

Para responder às questões de 18 a 20, leia o fragmento do romance O coronel e o lobisomem, de José Cândido de Carvalho, publicado originalmente em 1964.

¹    A bem dizer, sou Ponciano de Azeredo Furtado, coronel de patente, do que tenho honra e faço alarde. Herdei do meu avô Simeão terras de muitas medidas, gado do mais gordo, pasto do mais fino. Leio no corrente da vista e até uns latins arranhei em tempos verdes da infância, com uns padres-mestres a dez tostões por mês. Digo, modéstia de lado, que já discuti e joguei no assoalho do Foro mais de um doutor formado. Mas disso não faço glória, pois sou sujeito lavado de vaidade, mimoso no trato, de palavra educada. [...]

     Pois foi Ponciano arrotar vantagem e aparecer, na boca de um taquaral¹, aquele pedação de onça que em medida de olho nu ganhava de um garrote em tamanho e peso. João Ramalho, braços no alto, gritou pelo santo nome de Nossa Senhora do Parto e sumiu na macega². Quando dei balancete na situação, vi que estava desprevenido de gente, sem atinar como um sujeito de porte, talqualmente Saturnino Barba de Gato, achou abrigo em mato tão ralinho, quase de não esconder nem preá. Nunca fui desajuizado de enfrentar, em campo aberto, sem maiores instruções e preparo de armas, tanto peso de onça. Sem outra espingarda que não a minha, desguarnecido de costas, piquei a navegação, um cavalinho de lombo educado e boca macia. O bichinho, atingido na curva da virilha, relinchou, ficou nas patas do coice, deu meia-volta e levou Ponciano a sítio seguro — um pantaneiro de água choca, onde ninguém nem perto passava por ser covil de vermina³ e miasma4. Se não sou expedito de sela, e não sei domar uma rédea, o tremedal5 dava cabo dos meus dias, pois lama sugadora nunca conheci outra de tamanha ganância. Cheguei no Sobradinho mais água podre do que gente, numa dianteira de hora sobre os assustados da onça. Feita a mudança de roupa e lavagem da barba, a primeira deliberação que tomei foi sustar o cabrito:

     — Sem-vergonha não come na minha mesa.

     Em língua de urtiga recebi os medrosos. Vieram de rabo encolhido, vela murcha, sem vento e sem fala. Larguei de lado os veludos dos frades, as boas educações do Foro e foi um arrazoado de vazar a sala, entrar no corredor e sair na cozinha. Recriminei o covardismo deles todos até gerações passadas e por passar. Cada torcida da barba vinha acapangada de um vitupério:

5 — Gente desbriada! Se não sou homem de patente, com preparo de guerra, a onça fazia uma desgraça.

(O coronel e o lobisomem, 1971.)

¹ taquaral: bambuzal (aglomerado de bambus).
² macega: campina, campo.
³ vermina: conjunto de vermes e parasitas.
⁴ miasma: exalação pútrida que emana de animais ou vegetais em decomposição.
5tremedal: pântano.

  1. Considerando o contexto em que se insere, explicite o sentido da frase “piquei a navegação” (2º parágrafo).
  2. “O bichinho, atingido na curva da virilha, relinchou, ficou nas patas do coice, deu meia-volta e levou Ponciano a sítio seguro — um pantaneiro de água choca, onde ninguém nem perto passava por ser covil de vermina e miasma. Se não sou expedito de sela, e não sei domar uma rédea, o tremedal dava cabo dos meus dias, pois lama sugadora nunca conheci outra de tamanha ganância.” (2º parágrafo) Nesse trecho, que elemento é personificado? Justifique sua resposta.

Resolução:

  1. Em “piquei a navegação, o narrador utiliza o termo “picar” com o sentido de “esporear” e o termo “navegação” como metáfora para o seu meio de transporte, no caso, “um cavalinho de lombo educado e boca macia”. O excerto quer dizer que Ponciano fugiu, a cavalo, da onça a que se refere.
  2. A personificação é uma figura de linguagem que consiste em atribuir características de seres animados a seres inanimados ou características de seres humanos a seres não humanos. No excerto, o narrador atribui à lama a ganância, ou seja, atribui a um elemento não humano uma característica humana.
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