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Leia os textos I e II abaixo para responder às questões 4 a 6.
Texto I:
Excerto do Canto III de Os Lusíadas
Qual contra a linda moça Polycena,
Consolação extrema da mãe velha,
Porque a sombra de Aquiles a condena,
Co ferro o duro Pirro se aparelha;
Mas ela, os olhos, com que ar serena
(Bem como paciente e mansa ovelha),
Na mísera mãe postos, que endoudece,
Ao duro sacrifício se oferece:
Tais contra Inês os brutos matadores,
No colo de alabastro, que sustinha
As obras com que Amor matou de amores
Aquele que despois a fez Rainha,
As espadas banhando e as brancas flores,
Que ela dos olhos seus regadas tinha,
Se encarniçavam, férvidos e irosos,
No futuro castigo não cuidosos.
Bem puderas, ó Sol, da vista destes,
Teus raios apartar aquele dia,
Como da seva mesa de Tiestes,
Quando os filhos por mão de Atreu comia!
Vós, ó côncavos vales, que pudestes
A voz extrema ouvir da boca fria,
O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,
Por muito grande espaço repetistes.
Assi como a bonina, que cortada
Antes do tempo foi, cândida e bela,
Sendo das mãos lacivas maltratada
Da minina que a trouxe na capela,
O cheiro traz perdido e a cor murchada:
Tal está, morta, a pálida donzela,
Secas do rosto as rosas e perdida
A branca e viva cor, co a doce vida.
Fonte: CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. Lisboa: Porto editora, 2009, p.161-162.
Texto II:
A tirania é um fenômeno que, acima de tudo, desvanece a linha entre a justiça e o arbítrio venal. Quando isso se dá, abrem-se as portas para o caos, fragilizando toda a estrutura de um governo. É impressionante como o gênero dramático se presta (talvez mais que os demais) a retratar perfeitamente as atrocidades advindas de tal fenômeno. [...]
Tiestes, tragédia do escritor e filósofo Sêneca [...] é mais um exemplar desse tema.
O mito da dinastia dos tantálidas é relativamente bem conhecido e a ele está intimamente ligado o drama em Tiestes. O mais ilustre e remoto patriarca dessa família, Tântalo, é famoso por sofrer no tártaro um suplício horrível, consequência de seu ato cruel e prepotente de querer testar a onisciência dos deuses mitológicos matando seu filho Pélope e servindo-o em banquete a estes. Por seu ato, é condenado a padecer de fome e sede inauditas nas profundezas, tendo a seu alcance árvore com frutos e um lago que, não obstante, dele se apartam quando busca se saciar. [...]
É na figura de seus dois netos que assentará tal herança. Atreu é famoso por sua (suposta) paternidade: Agamenon e Menelau, heróis na guerra de Troia, são seus filhos. Tiestes é seu irmão. Na peça, ele e seus três filhos encontram-se exilados, fruto de sua ambição em usurpar o trono de Atreu, além de lhe ter seduzido a esposa. A fúria selvagem do monarca é insaciável: à guisa de vingança, convida o irmão a regressar, simulando reconciliação, mas secretamente assassina os sobrinhos, renovando o crime do avô no banquete atroz que promove a Tiestes, espetáculo tão terrível que faz o próprio sol retomar sua marcha, deixando o mundo em trevas.
Fonte: SOUSA, Clayton de. O poder do arbítrio em “Tiestes”, de Sêneca. Gazeta do Povo, Curitiba, 25 out. 2019. Disponível em https://www.gazetadopovo.com.br/cultura/poder-arbitrio-tiestes-seneca/
Com base no cotejo dos textos I e II, é CORRETO afirmar que a intertextualidade, na epopeia camoniana,
sugere que o martírio de Inês é um desdobramento da herança de suplícios da dinastia dos tantálidas, em que o arbítrio dos governantes inviabiliza a paz social.
demonstra que o desvanecimento da linha entre justiça e tirania no episódio lusitano fragiliza a governança, repetindo o caos da tragédia de Sêneca.
equipara o horror da morte de Inês à atrocidade do banquete de Atreu, indicando que ambos os atos representam uma barbárie que rompe a harmonia universal.
justifica a posterior vingança de D. Pedro sob a ótica da fúria de Atreu, enfatizando que o crime contra inocentes serviu para punir traições e usurpações prévias.
comprova que o gênero épico se apropria da estrutura dramática para analisar a onisciência divina diante de atrocidades praticadas por monarcas cruéis.
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