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As questões 30 a 33 referem-se ao texto seguinte, extraído do livro Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, cuja primeira edição é de 1936.
Texto 2
1 Com o declínio da velha lavoura e a quase concomitante ascensão dos centros urbanos, precipitada
2 grandemente pela vinda, em 1808, da Corte Portuguesa e depois pela Independência, os senhorios rurais
3 principiam a perder muito de sua posição privilegiada e singular. Outras ocupações reclamam agora igual
4 eminência, ocupações nitidamente citadinas, como a atividade política, a burocracia, as profissões liberais.
5 É bem compreensível que semelhantes ocupações venham a caber, em primeiro lugar, à gente
6 principal do país, toda ela constituída de lavradores e donos de engenhos. E que, transportada de súbito
7 para as cidades, essa gente carregue consigo a mentalidade, os preconceitos e, tanto quanto possível, o
8 teor de vida que tinham sido atributos específicos de sua primitiva condição.
9 Não parece absurdo relacionar a tal circunstância um traço constante de nossa vida social: a posição
10 suprema que nela detêm, de ordinário, certas qualidades de imaginação e “inteligência”, em prejuízo das
11 manifestações do espírito prático ou positivo. O prestígio universal do “talento”, com o timbre particular que
12 recebe essa palavra nas regiões, sobretudo, onde deixou vinco mais forte a lavoura colonial e escravocrata,
13 como o são eminentemente as do Nordeste do Brasil, provém sem dúvida do maior decoro que parece
14 conferir a qualquer indivíduo o simples exercício da inteligência, em contraste com as atividades que
15 requerem algum esforço físico.
16 O trabalho mental, que não suja as mãos e não fatiga o corpo, pode constituir, com efeito, ocupação
17 em todos os sentidos digna de antigos senhores de escravos e dos seus herdeiros. Não significa
18 forçosamente, neste caso, amor ao pensamento especulativo, – a verdade é que, embora presumindo o
19 contrário, dedicamos, de modo geral, pouca estima às especulações intelectuais – mas amor à frase sonora,
20 ao verbo espontâneo e abundante, à erudição ostentosa, à expressão rara. E que para bem corresponder ao
21 papel que, mesmo sem o saber, lhe conferimos, inteligência há de ser ornamento e prenda, não instrumento
22 de conhecimento e de ação.
23 Numa sociedade como a nossa, em que certas virtudes senhoriais ainda merecem largo crédito, as
24 qualidades do espírito substituem, não raro, os títulos honoríficos, e alguns dos seus distintivos materiais,
25 como o anel de grau e a carta de bacharel, podem equivaler a autênticos brasões de nobreza. Aliás, o
26 exercício dessas qualidades que ocupam a inteligência sem ocupar os braços, tinha sido expressamente
27 considerado, já em outras épocas, como pertinente aos homens nobres e livres, de onde, segundo parece, o
28 nome de liberais dado a determinadas artes, em oposição às mecânicas que pertencem às classes servis.
(Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1984, p. 50-51)
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