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As questões de 21 a 30 referem-se ao texto a seguir:
Texto 1
1 Vou confessar um pecado: às vezes, faço maldades. Mas não faço por mal. Faço o que faziam os
2 mestres zen com seus "koans". "Koans" eram rasteiras que os mestres passavam no pensamento dos
3 discípulos. Eles sabiam que só se aprende o novo quando as certezas velhas caem. E acontece que eu
4 gosto de passar rasteiras em certezas de jovens e de velhos...
5 Pois o que eu faço é o seguinte. Lá estão os jovens nos semáforos, de cabeças raspadas e caras
6 pintadas, na maior alegria, celebrando o fato de haverem passado no vestibular. Estão pedindo dinheiro para
7 a festa! Eu paro o carro, abro a janela e na maior seriedade digo: "Não vou dar dinheiro. Mas vou dar um
8 conselho. Sou professor emérito da Unicamp. O conselho é este: salvem-se enquanto é tempo!". Aí o sinal
9 fica verde e eu continuo.
10 "Mas que desmancha-prazeres você é!", vocês me dirão. É verdade. Desmancha-prazeres. Prazeres
11 inocentes baseados no engano. Porque aquela alegria toda se deve precisamente a isto: eles estão
12 enganados.
13 Estão alegres porque acreditam que a universidade é a chave do mundo. Acabaram de chegar ao
14 último patamar. As celebrações têm o mesmo sentido que os eventos iniciáticos – nas culturas ditas
15 primitivas, as provas a que têm de se submeter os jovens que passaram pela puberdade. Passadas as
16 provas e os seus sofrimentos, os jovens deixaram de ser crianças. Agora são adultos, com todos os seus
17 direitos e deveres. Podem assentar-se na roda dos homens. Assim como os nossos jovens agora podem
18 dizer: "Deixei o cursinho. Estou na universidade".
19 Houve um tempo em que as celebrações eram justas. Isso foi há muito tempo, quando eu era jovem.
20 Naqueles tempos, um diploma universitário era garantia de trabalho. Os pais se davam como prontos para
21 morrer quando uma destas coisas acontecia: 1) a filha se casava. Isso garantia o seu sustento pelo resto da
22 vida; 2) a filha tirava o diploma de normalista. Isso garantiria o seu sustento caso não casasse; 3) o filho
23 entrava para o Banco do Brasil; 4) o filho tirava diploma.
24 O diploma era mais que garantia de emprego. Era um atestado de nobreza. Quem tirava diploma não
25 precisava trabalhar com as mãos, como os mecânicos, pedreiros e carpinteiros, que tinham mãos rudes e
26 sujas.
27 Para provar para todo mundo que não trabalhavam com as mãos, os diplomados tratavam de pôr no
28 dedo um anel com pedra colorida. Havia pedras para todas as profissões: médicos, advogados, músicos,
29 engenheiros. Até os bispos tinham suas pedras.
30 (Ah! Ia me esquecendo: os pais também se davam como prontos para morrer quando o filho entrava
31 para o seminário para ser padre – aos 45 anos seria bispo – ou para o exército para ser oficial – aos 45 anos
32 seria general.)
33 Essa ilusão continua a morar na cabeça dos pais e é introduzida na cabeça dos filhos desde
34 pequenos. Profissão honrosa é profissão que tem diploma universitário. Profissão rendosa é a que tem
35 diploma universitário. Cria-se, então, a fantasia de que as únicas opções de profissão são aquelas oferecidas
36 pelas universidades.
37 Quando se pergunta a um jovem "O que é que você vai fazer?", o sentido dessa pergunta é "Quando
38 você for preencher os formulários do vestibular, qual das opções oferecidas você vai escolher?". E as
39 opções não oferecidas? Haverá alternativas de trabalho que não se encontram nos formulários de
40 vestibular?
41 Como todos os pais querem que seus filhos entrem na universidade e (quase) todos os jovens querem
42 entrar na universidade, configura-se um mercado imenso, mas imenso mesmo, de pessoas desejosas de
43 diplomas e prontas a pagar o preço. Enquanto houver jovens que não passam nos vestibulares das
44 universidades do Estado, haverá mercado para a criação de universidades particulares. É um bom negócio.
45 Alegria na entrada. Tristeza ao sair. Forma-se, então, a multidão de jovens com diploma na mão, mas
46 que não conseguem arranjar emprego. Por uma razão aritmética: o número de diplomados é muitas vezes
47 maior que o número de empregos.
48 Já sugeri que os jovens que entram na universidade deveriam aprender, junto com o curso "nobre"
49 que frequentam, um ofício: marceneiro, mecânico, cozinheiro, jardineiro, técnico de computador, eletricista,
50 encanador, descupinizador, motorista de trator... O rol de ofícios possíveis é imenso. Pena que, nas escolas,
51 as crianças e os jovens não sejam informados sobre essas alternativas, por vezes mais felizes e mais
52 rendosas.
53 Tive um amigo professor que foi guindado, contra a sua vontade, à posição de reitor de um grande
54 colégio americano no interior de Minas. Ele odiava essa posição porque era obrigado a fazer discursos. E ele
55 tremia de medo de fazer discursos. Um dia ele desapareceu sem explicações. Voltou com a família para o
56 seu país, os Estados Unidos. Tempos depois, encontrei um amigo comum e perguntei: "Como vai o
57 Fulano?". Respondeu-me: "Felicíssimo. É motorista de um caminhão gigantesco que cruza o país!".
(Rubem Alves. Diploma não é solução, Folha de S. Paulo, 25/05/2004.)
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